Inquietos


Semana passada, durante um voo, presenciei uma cena meio diferente.

Sentei no corredor, como de praxe (janelas lembram ao meu corpo que tenho labirintite, melhor evitar) e, ao meu lado, dois amigos, um rapaz e uma moça, que pareciam regular idade comigo (talvez alguns anos a menos que os meus “20 e quase 30”…).

Separado pelo corredor, na outra janela, um outro amigo deles, um pouco mais velho que todos nós.

Estava eu lendo um livro, como também de praxe em voos e aeroportos, quando a inquietação de todos eles me tirou a concentração da leitura. Os dois que estavam ao meu lado, principalmente, pareciam crianças em excursão à Disney – falavam alto, comentavam todas as coisas, não se acomodavam corretamente na poltrona, perguntavam pra quê tudo aquilo servia, riam, olhavam pra janela com uma empolgação infantil, mesmo com a aeronave ainda em solo, e por todas essas coisas percebi que era o primeiro voo da vida deles. A visita breve ao banheiro antes de o avião decolar (xixi de nervoso, quem nunca fez?), o sinal da cruz e o aperto de mãos suadas durante os primeiros 5 minutos de voo denunciaram tudo: só podia ser o primeiro da vida deles!

Passei todo o tempo sem conseguir focar na leitura, prestando atenção em tudo o que eles faziam e falavam, em respeito involuntário a minha péssima mania, também involuntária, de reparar em todas coisas com os mínimos detalhes. E foi então que a moça da janela, a que tava do meu lado, começou a conversar com o amigo da outra janela através da LINGUAGEM DE SINAIS.

- “Engraçado…tenho quase certeza de que ouvi a voz do moço da outra janela, acho que ele não é surdo-mudo!”, pensei no mesmo momento em que virei a página do livro, porque me dei conta de que já estava há quase uns 10 minutos com os olhos fixos num mesmo lugar, e que talvez já desse pra perceber que eu não tava lendo mais coisa nenhuma, e sim reparando na vida alheia.

A aeromoça fez todo o serviço de bordo, entregou a todos um sanduiche quente, e eles se comunicaram por sinais que o lanche estava muito bom (E de fato estava!).

O avião passou por uma zona de turbulência, sofremos umas chacoalhadas de leve, e a moça do meu lado perguntou pro amigo deles, com mil gestos com as mãos, se aquilo era normal.

As nuvens faziam desenhos sensacionais no céu, que pude ver de rabo de olho pela janela que procuro sempre evitar, e a minha amiga “falante” perguntou pro amigo dela, ainda com as mãos, se do lado dele também tava tudo lindo de se ver (e depois bateu umas 30 fotos daquele céu de algodão doce!)…

- “É…dá pra entender tudo o que eles falam”, pensei comigo, numa total pretensão de achar que eles quiseram realmente dizer tudo o que eu achei que eles realmente quiseram dizer.

- “Mas por que será que eles não conversam, então, se todos eles falam? Será que eles querem ser educados e evitar barulho dentro do avião?? Mas eles estão fazendo mais bagunça do que se tivessem berrando!” – eu mesma, levantando mil hipóteses. Não tava entendendo o que era toda aquela cena de teatro infanto-juvenil…

Bom…De fato nenhum deles era surdo-mudo, e só muitos minutos depois me ocorreu a ideia de que eles poderiam ser professores de linguagem de sinais, ou que poderiam até mesmo ter um parente com necessidades especiais, e que por isso eles sabiam conversar com as mãos. Durante o tempo em que prestei atenção neles, porém, a única coisa que me pareceu foi que tudo não passava de uma brincadeira infantil – de crianças que querem revelar segredos ou compartilhar coisas de uma forma que ninguém perceba muito (todos já fizemos isso algum dia! E só crianças fazem coisas sem propósito…Qual é o propósito de falar através de sinais, se nenhum dos interlocutores PRECISA falar por sinais? Não tem propósito!! Mesma coisa que fechar o olho e ler em braile por prazer…Na minha cabeça, não faz sentido!)…No começo do voo até cheguei a pensar em ser educada, e oferecer o meu lugar em troca da janelinha (que tanto odeio) do amigo do outro lado, pra que eles se sentassem todos juntos, mas vi que a emoção da viagem deles era mesmo a comunicação inusitada que eles estabeleceram entre si. Eles todos estavam com tanto prazer naquele blábláblá silencioso, que percebi imediatamente que eu seria muito estraga-prazeres se quisesse bancar a fina-fiz-curso-de-etiqueta-e-sou-legal naquele contexto estranho.

Só sei que foi nesse alvoroço de mãos e de pessoas se atravessando na minha bandeja (e quase na minha poltrona) para completar um comentário, que a 1 hora de voo mais longa da minha vida seguiu. Aquela inquietação toda já tinha me tirado a leitura, a paz e a pouca paciência, por incrível que pareça. Por breves instantes, até tive uma sessão nostalgia boa de bobices da minha infância e da época em que tentava falar todas as coisas com a língua do P, cheguei a sorrir em pensamento, mas foi mesmo uma lembrança muito rápida: no fundo, eu não via a hora de todo mundo sair daquele avião, pra que parasse, de uma vez por todas, a brincadeira de criança do meu lado (e eu pudesse respirar aliviada no meu mundo de gente grande!)…

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Falando em inquietação, assisti ao “INQUIETOS” (“Restless”) esse final de semana, romancezinho sobre dois jovens, ela com doença terminal, nem preciso dizer que essas coisas de amores com prazo de validade são pra lá de tristes. 

Fazia tempo que não via um filme doce, ingênuo, inocente, sobre namoros infanto-juvenis, que de tão bobinho chegou até a me dar um soninho no começo, admito. Realmente um filme leve (mesmo a história sendo pesada), lindo, com uma fotografia incrível, e um magnífico retrato de como são puras e sinceras as nossas primeiras paixões…

Mas, mesmo recomendando bastante, confesso que me dividi entre achar tudo a coisa mais fofa e a mais boba do mundo. Foi tudo tão pueril, que não sei se senti amor ou irritação.

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Depois desse filme cujo título me fez lembrar os espevitados do voo da semana passada, percebi que me tem faltado o tato para valorizar coisas doces, despretensiosas, infantis e naturalmente imaturas. E pasmem, meus caros, não sou a única “insensível” por aqui (a julgar pelos quase mil que fizeram críticas negativas ao filme num site/fórum de discussão na internet. Reclamação quase unânime: “água-com-açúcar” demais!)!

Eu, que nem sou daquelas que tem pavor de crianças (na realidade, adoro!), acabei me flagrando sem a menor paciência pra coisas bobas! Coloquei na (minha) cabeça (infame) que na vida existem três tipos de brincadeiras: as maliciosas – que sempre descarto; as inteligentes – que considero as adequadas pra quem se define adulto; e as infantis – que no meu dicionário recebem, automaticamente, a definição de “idiotas”…

Mas não parei pra pensar que não existe idade pra coisas infantis, pra brincadeiras sem nexo, nem pra amores românticos demais…e que a doçura é, sim, muito saudável! A gente é que não tem paciência pra mais nada disso, e “vamos logo ao que interessa, por favor!”…Infelizmente.

As coisas se deturparam de uma forma tão descomedida, que o normal é mais ação, mais perversidade, mais malícia, mais dissimulação, mais sisudez, como se todas essas coisas fossem inerentes ao mundo adulto. No fundo, ninguém que já cresceu tá mais acostumado a coisas tão singelas…

Se no avião eu tivesse presenciado a cena de duas pessoas se xingando, teria sido igualmente estranho, mas talvez não tivesse me causado tanta irritação quanto causou a de três adultos com atitudes “não tão adultas”, “brincando” de falar com códigos do meu lado…Se duas mulheres, sentadas próximas a mim no voo,  tivessem numa briga daquelas de puxar cabelo e quebrar unha, eu teria achado horrível, mas provavelmente ia me acabar de tanto dar de risada quando fosse contar o ocorrido pra alguém…

(E eu sei que você também!)

Se no filme tivesse menos cena do casalzinho roçando pontas de nariz e jogando pedrinhas no lago, talvez eu não tivesse sentido sono…E aposto que se houvesse alguma cena de nudez, ou qualquer coisa mais explícita, aqueles quase mil críticos que falei há pouco teriam achado o romance mais lindo de todos os tempos…

Não sei quem foi que fez isso, mas mataram os romances de infância e todas as outras coisas de infância no mundo de quem já é grande.

E agora eu pergunto: são ELES os bobos, os patetas, os INQUIETOS? Ou somos EU e VOCÊ?

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