(A minha) longevidade 3


Sempre quis chegar aos 103.

Quis, não; quero! Eu me imagino desbancando a Dercy Gonçalves e o Oscar Niemeyer no quesito durabilidade, e quem bem me conhece sabe que não me desejo uma vida tão longa de brincadeira – eu realmente acredito que vou chegar lá!

(E não me perguntem por que são 103, e não 100, ou 104, ou 110, ou 98, porque o número não tem nada de astral, esotérico, não é a combinação mais favorável da numerologia, nada a ver! Mas coloquei na cabeça o tal do 103, e agora acho que só Deus mesmo pra tirar!)

Claro que minha própria profecia é, além de tudo, audaciosa: ninguém sonha envelhecer na cama, com limitações e sofrimentos, muito menos eu; serão 103 anos de muita atividade, em todos os sentidos! Se duvidar, programo minha festa dos 100 na montanha-russa de algum parque de diversões…

Semana passada, porém, depois de uma conversa seria com a minha bisavó, uma jovem senhora absurda e invejavelmente saudável, lúcida e bem disposta, andei mudando meus conceitos…Entre nossos goles de café e meus comentários sobre a minha rotina, falamos sobre envelhecer, sobre família, sobre morte, sobre perdas e sobre como é viver com fartura de dias.

Minhas tias já tinham me comentado que sempre que alguém da família falecia, especialmente uma pessoa de idade já mais avançada, minha bisavó ficava péssima, numa quase depressão profunda. Não apenas pela dor óbvia de se perder um ente querido, mas por imaginar que a morte estava sondando, e talvez muito próxima.

Perguntei pra minha bisavó, então, que está no alto dos seus 91 anos, se ela tem medo de morrer, ou se pensa nisso com frequência e, de curiosa que sou, quis saber o que ela sente toda vez que alguém se vai. Foi aí que percebi que viver muito é, sim, um privilégio, mas pode trazer mais dissabores do que jamais ousei imaginar.

Ao longo dos anos, ela perdeu os pais, perdeu todos os irmãos, perdeu seus dois maridos, perdeu filhos, netos e até bisnetos, e praticamente todos os amigos mais próximos. Chorou copiosamente a morte de muitos com quem conviveu, e até sofreu quando também partiram seus cachorrinhos e galinhas de estimação. Ela viu o mundo se acabar em guerras, viu crescer o inferno nas ruas, viu a marginalidade e falta de paz em todos os cantos, viu o horror da falta de segurança se tornar habitual. Ela se desfez de bens, de amores, da juventude, de planos, de boas perspectivas. Ela deixou pra trás a esperança, o próprio tempo e, de tudo, só fez questão de não deixar jamais a fé.

Também me comentou que a dor por inúmeras tristezas e despedidas já foi tanta, mas taaaanta, que de uns anos pra cá parece que ela nem sente mais nada. E eu, pelo menos, sempre achei que a pior dor é essa que te anestesia, que te amortece – juro que me preocupo quando me acostumo com algum sofrimento. A normalidade das coisas me espanta.

Confesso que fiquei desapontada, de certa forma, com os relatos da minha bisa! Logo eu, que sempre quis ficar bem velhinha, mas que nunca tinha tido a esperteza de perguntar pra alguma pessoa bem velhinha se era bom ou não. Parei pra analisar como deve ser gostoso ter saúde, acumular muitas historias, sabedoria e experiência, ver crescer a prole, olhar pros anos de trás e dar um sorriso de satisfação, ter um sentimento forte e vivo de missão cumprida, todas essas ótimas coisas…mas como também deve ser pesado ter a real sensação de que as histórias passam, as pessoas passam, de que não há mais nada e só resta mesmo um final, cada vez bem mais próximo. E só! Por mais que Deus mesmo diga que é bem melhor o final das coisas que o começo delas, ninguém gosta de dizer adeus…

Obviamente que minha bisavó não me disse que quer morrer, porque taí outra coisa que ninguém quer. E eu até acho que ela tem saúde e condições de se guiar muito bem por mais uns bons anos e bater o meu próprio recorde!

Eu, também, não penso em diminuir minha meta pra 63 ou 83. Com muito sofrimento, muitas perdas, ou mesmo milhares de desapegos forçados, ainda quero meus 103! Mas que foi um tapa na cara da minha ingenuidade de uma “longa vida sorridente e feliz”, isso foi! Bem ou mal, meus caros, acordei:  TUDO REALMENTE TEM DOIS LADOS…

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3 thoughts on “(A minha) longevidade

  • basket jordan femme

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    • susanasteil Autor

      Pra mim, analisando de fora, claro que compensa! Imagina: programar uma viagem pros meus 100??? Hahaha…mas que deve ser tenso ver o tempo, e as pessoas, e as coisas passarem, isso, com certeza!