Dos paradoxos do amor…


Incrível como a gente passa a vida inteira idealizando um par perfeito (que tenha tais e tais gostos, que seja tal e tal coisa, que tenha passado por tais e tais experiências, que tenha tais e tais sonhos, que vista tal roupa, que tenha tal estilo, que tenha tal aptidão, que repudie tal comportamento, que isso, que aquilo…) e, quando ele chega, mesmo, é (quase sempre) tão diferente de tudo aquilo que a gente imaginou…

Amor é isto mesmo: quebra de regras e de padrões. Nunca é perfeito, raramente corresponde a prévias expectativas, e vem pra desconstruir todas as razões da nossa mente inventiva. Entra sem pedir licença, fica e se acomoda sem planejamento, muda boa parte dos nossos planos e também dos nossos conceitos. De repente, por amor, a gente se vê curtindo a ideia de ouvir uma música que jamais entraria na nossa playlist, aceita erros até então imperdoáveis, aprende a gostar de coisas que nem sabia que existia, testa novos hobbies, muda de ideia, muitas vezes também de opinião. Só por amor um sedentário vira corredor de meia maratona, a medrosa de infância faz mergulho e um curso de voo livre, o acomodado vira empreendedor, a metida a besta encara uma trilha no final de semana, o chato fica menos chato. Só por amor a gente dá a cara pra bater e esquece que algum dia teve orgulho, ou medo, ou preconceitos. Só por amor a gente se doa e, em vez de diminuir, transborda por conta disso.

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O amor veio pra mostrar pra gente que a realidade a dois é bem menos doída, que a nossa verdade nunca é absoluta e que se fosse só do nosso jeito realmente não teria a menor graça! Ele não se enche de vaidade, não sobrevive na mentira, não se apega à superficialidades…Releva, ensina, aprende. Erra e se corrige algumas vezes, erra e não se corrige em outras tantas, mas subsiste mesmo assim.

Amor de verdade é silencioso. Duvide de sentimentos muito espalhafatosos, de romances com muito alarde, declarações apoteóticas e frases cheias de alegorias – isso pode ser uma paixão avassaladora, exibicionismo, carência ou até falta de juízo, mas nunca amor. Amor é mais suave, mais cheio de si, não precisa se autoafirmar. Não requer protocolos, nem atenção de terceiros ou quartos. Ele está sempre lá, e quem o sente, sabe. Quem o recebe, sabe-se lá Deus como, sabe mais ainda.

Amor não combina com ciúme; o que combina com ciúme é possessividade. Quem ama deixa livre, exige liberdade em troca, não pressiona. Sabe respeitar. Quem ama cuida, mas não sufoca. Quem ama se preocupa, mas não se enche de neura. Quando há amor os limites são respeitados e, as individualidades, necessárias. Isso porque amor só pode existir com dois inteiros, nunca com alguém pela metade.

Amor também não combina com medo e dúvidas – o que passa por isso, infelizmente, é sentimento não correspondido. Quem ama não vive de achismos, não pensa duas vezes pra fazer o outro feliz, não mede esforços, nem vê empecilhos. Não se acanha ao se arriscar, não se diminui e nem se exalta. Não se envergonha e nunca acha que já ama o bastante. O amor nunca para e, mesmo autossuficiente, jamais deixa de querer mais!

Amar seriamente não é se encantar com as qualidades do outro, isso até vizinho faz. Amar é entender as fragilidades do outro lado, as opiniões contrárias da outra cabeça, e viver em constante adaptação – “eu sei quando falar, sei mais ainda quando ouvir e quando deixar passar”. É aceitar que ninguém é feito só de bons momentos e que nem todos os dias são de céu azul. É não se irritar facilmente, ou até se irritar facilmente, mas arrumar um jeito de resolver isso. É ajudar o outro a ser melhor. É perceber que se ficou melhor, também.

O amor é frágil, necessita de constante atenção e, tal como planta, não pode morrer de sede. Por outro lado, sabe ser resiliente: não se acaba com qualquer tempestade e se mantém firme mesmo quando muitas coisas – a paixão, o encantamento, o esquentamento – foram embora há tempos. O amor se molda, é flexível e, como pretinho básico e salto fino, acaba por se reinventar de tempos em tempos.

Amor é tranquilo, é despreocupado, é auxiliador. É revigorante. Quem ama perdoa, não porque não doeu…mas porque sabe que é o que vale mais a pena, no fim das contas. Quem ama passa por cima de “poréns” e “senãos”, não faz mau negócio, nem se preocupa com a opinião dos outros. Quem ama do fundo da alma sabe valorizar o indispensável, e sabe mais ainda tornar-se indispensável na vida de alguém. Quem ama lá de dentro sabe apreciar as pequenas coisas, os gestos mínimos, a falta do que dizer. Quem ama genuinamente brinca de ser Deus e se faz onipresente: está em todos os lugares e em todos os momentos, ainda que apenas em pensamento.

O amor é engraçado, é diferente de qualquer outro sentimento catalogado no Aurélio ou no Houaiss, e é o que nos move em outra direção, que nos faz ter outro sentido. O amor é complexo de explicar, simplicíssimo de sentir. É delicado e marcante. É encaixe, mas também é escolha. É resistência e rendição ao mesmo tempo. É coragem, e também um mundo de incertezas. É entrega e abstinência. É sobriedade e exagero. É excesso e paciência. É inexplicável e inconfundível. É uma tranquilidade voraz, e uma quietude barulhenta.

É a melhor resposta pra qualquer pergunta, é a melhor reação em qualquer ocasião. É o que faz a gente ser feliz por ter estado errado tanto tempo, é a nossa melhor e mais confortável roupa.

O amor, tão profundo e tão cheio de paradoxos, tão complexo e tão contraditório, é a nossa mais acertada escolha.

SEMPRE!

Texto de minha autoria. Proibida a reprodução do todo ou parte sem prévia autorização por escrito, sob pena de sanções impostas pela Lei de Direitos Autorais e de Propriedade Intelectual.
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