#FilosofiadeQuinta: Transtorno de identidade (ou síndrome do compartilhamento e repetição excessivos) 1


compartilhamentoDe tudo o que o tempo aboliu e está em desuso – o amor pelos encartes de cds, os cadernos de receitas, as fotos impressas, as mensagens mais longas, a comunicação menos impessoal, as ligações telefônicas, o trema do pingüim, os amores duradouros, os pedidos de desculpas – do que mais sinto falta, sem sombra de dúvida, é de gente de verdade.

Nunca se fez tanta gente como agora, mulheres estão parindo aos rodos, mas personalidade, mesmo, tem sido como bolsa Louis Vuitton: todo mundo quer ter, alguns poucos tem o privilégio de, e a maioria falsifica.

As pessoas constroem imagens com base no que gostariam de ser (e não são), embarcam em relacionamentos com base no que gostariam de sentir (e não sentem), abraçam hobbies com base na habilidade que sonhavam em ter (e não têm), escolhem carreiras com base no dinheiro que pensam em ganhar (e nunca vão)…comem porque alguém disse que era bom, descartam porque alguém resolveu que já saiu de moda, viajam pra Kosovo (?) porque algum bendito falou que era interessante (e postou foto nas redes sociais, óbvio), fazem porque outros tantos fazem…e não pensam, é claro. Porque se pensassem agiriam menos em cadeia.

Hoje as pessoas justificam mais, do que argumentam.

Copiam mais, do que inventam.

Respondem mais, do que perguntam.

Seguem mais, do que norteiam.

Reparam mais e observam de menos. Criticam mais e impulsionam de menos. Invejam mais e se qualificam de menos. Têm medo de se perder na própria cidade sem o uso de um GPS, mas vergonha nenhuma de se expor ao ridículo. Aliás, até o ridículo andou perdendo aparentemente a personalidade. Hoje em dia se pode tudo, se fala de tudo, se divulga de tudo…é um tal de todo mundo levantando a bandeira de encorajamento do “faça você também”, de forma que nada mais é tão estranho que não possa ser publicado. Espelho? Bom senso? Inventividade? Originalidade? Já era!

Sinto realmente falta de pessoas que apenas SÃO. Que riem de verdade, que falam o que pensam, que choram quando se emocionam, que concordam quando verdadeiramente se identificam (e só quando se identificam), que discordam com propriedade e não são “rebeldes sem causa” por conta disso…que são mais intuitivas. E bem mais independentes.

Sinto falta de quem não precisa da aprovação do outro pra ser feliz, de quem não precisa aparecer pra ser visto, de quem não vive a vida de um terceiro, nem de um quarto…Sinto falta das exceções às regras, de quem se assume, de quem se joga, e mais ainda dos poucos malucos que davam a cara pra bater. De gente que quer fazer porque quer fazer e pronto! De gente que vai fazer porque SABE fazer e palmas pra isso! Nosso maior paradoxo não é produzir muito e aproveitar pouco; é ter o universo inteiro pra explorar e permitir ter o próprio mundo reduzido a “comida sem glúten e sem lactose” e livros de colorir…

Claro, verdade seja admitida: eu não inventei a roda, nem você, e é evidente que eu já pintei algumas páginas da Floresta Encantada. As pessoas de quem gostamos nos influenciam MUITO, é verdade também, bons exemplos estão aí pra serem seguidos, e não está escrito em Código Penal nenhum que “repetição de comportamento” é crime (embora até devesse ser – assim a vida ganhava um sentido mais desafiador…)…Mas, reforço: quem foi que explodiu com a tal da personalidade? Cadê as pessoas com marca registrada? Praonde foram as opiniões protegidas por direito autoral??

Vinte, trinta, quarenta anos atrás falavam que no século XXI todas as coisas do planeta seriam produzidas por robôs, o que era uma previsão das mais estapafúrdias e ilusórias. Pois hoje somos quase todos robôs em tempo integral e palhaços nas horas vagas. Alguém duvida?

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