Neutralizando 6


Não são pés de galinha. Não são novas celulites. Não é o metabolismo mais lento. Não é a falta de disposição que eu jurava que, no meu caso, nunca ia chegar. Não é um novo e mais apurado patamar de exigência a respeito de todas as coisas do mundo. Não é gostar mais de ver panela do que salto alto em vitrina de shopping. Não é ter cada dia menos paciência. Não é preferir casas de chá à casa noturna mais badalada da cidade. Não é ter um novo e mais recente caso de amor com o silêncio. Não é curtir mais a minha própria companhia, com bastante frequência, do que qualquer outra. Não é visitar o médico mais vezes por ano. Não é pensar em secar varizes. Não é ler o caderno de promoção do mercado perto de casa. Não é ver que aquele priminho que carreguei no colo e que não frequentava minha turma porque era “pivete” demais, está de casamento marcado, virou rapaz bem sucedido e já está até ficando calvo. Não é ouvir as crianças que eu conheço me chamando de “tia” há VÁRIOS anos. Não é ficar com a meia rasgada, a calcinha rasgada, a unha quebrada, a perna sem depilar, o cabelo sem tinta, a olheira mal disfarçada, e não estar ABSOLUTAMENTE nem aí…

Não é nada disso que me faz sentir velha. Ou não é nada disso que me faz sentir velha de verdade.

O que me faz sentir velha de verdade é constatar, obviamente, que o tempo está passando cada vez mais rápido, e que não tenho a capacidade de sentir muita coisa. De sentimento, mesmo.

Sempre tive muito medo de “amortecer” pras coisas da vida – não mais me surpreender tão intensamente, não mais chorar tão desesperadamente, não mais me revoltar tão enfaticamente, não mais me apaixonar tão rapidamente…Mas é bem isso que acontece quando a gente envelhece: a gente neutraliza.

Como assim, neutraliza?

Aham…Assim, vapt-vupt, aquela coisa que vem e vai embora bem rápido, ou que nem para pra tomar um cafezinho…

Se ninguém me liga há decênios e eu morro no limbo do esquecimento, nem me importo tanto! Juro! Na verdade nem lembro que alguém, que deveria ter lembrado, acabou se esquecendo de mim. Não tenho mais tempo pra isso…Ninguém tem mais tempo pra isso…

Se eu conheço mais um “homem dos meus sonhos” e ele desaparece feito pó, não me retorna nenhuma ligação, mensagem, contato virtual, apelo melodramático, nada, eu nem choro! Eu me importo um pouco, eu me vitimizo um pouco, mas passa que nem ardor de merthiolate: é pior só na hora, mesmo; rapidinho vira casquinha…

Se alguém briga comigo ou me trata com injustiça (injustiça no meu e no nosso senso de nunca assumir a culpa de nada), eu até, no meu momento de raiva maior, armo um barraco na hora, lavo toneladas de roupa suja, falo o que não devia falar e choro mais que a minha cota mensal programada…mas logo passa e eu volto quase zerada pra casa! Porque quando a gente envelhece a gente aprende que levar raiva na mala faz um mal danado e, dizem por aí, pode causar um câncer. E nenhum de nós quer morrer de câncer…

Se o vizinho conta o escândalo do milênio, de traição, de falta de vergonha na cara, de falta de amor próprio, de absurdo e falta de caráter, a gente se espanta o suficiente só pra interagir com a conversa (e, verdade seja admitida, pra passar a fofoca adiante pelo menos na mesa do café da manhã…). Porque a gente já colecionou tanta coisa pavorosa, já testemunhou tanta cena cinematográfica, e já viu tanta coisa de que até Deus duvida, que nada mais parece ser tão chocante e, seguramente, o que assusta hoje vai ser substituído pela manchete do dia seguinte…

Se alguém me critica severamente eu até continuo sendo aquela que detesta críticas, mas não retruco, não faço cara feia, não fico de mal, não rogo praga lá no íntimo do meu ser, nada disso! Porque quando a gente cresce a gente aprende que é bem melhor ter, de uma ou outra forma, um certo ibope, que uma coleção de inimigos…

Se a minha tão sonhada promoção no trabalho não saiu, e se eu ando mais falida do que todas as pessoas que eu conheço juntas, eu até perco, sim, uma noite de sono. Perco duas noites de sono. Perco uma semana inteira de sono, a voz e um bocado da minha saúde, mas não perco o rumo e nem a esperança! Porque quando a gente avança na idade, a gente sabe que pra um fracasso só existem duas opções: voltar algumas casas e tentar de novo; ou começar do zero e tentar alguma coisa nova. Talvez de novo.

Quando a gente vai ficando velha de verdade, não vai se apaixonando de cara pelo cara cheiroso da camisa de grife que “me deixou em casa com seu novo carro do ano”…A gente sabe que o que está por fora é o que conta menos. A gente não quer só comida MESMO. A gente não acredita na primeira coisa que falam…Aliás, quase sempre a gente quer ver e rever pra acreditar.

Quando a gente vai somando ano na conta da vida, a gente já não gosta de qualquer coisa. Nem de qualquer jeito. Já não há mais tanto espaço pra improviso ou desacerto…

Quando o tempo da gente vai passando, a gente sente que vai cansando. Política? Crise econômica? Derretimento das geleiras? Causa gay? Causa nobre? Carnificina na Indonésia? Pra que isso, meu Deus?!? Cansa até de pensar a respeito e, no máximo, vira pauta de 10 minutos do churrasco de domingo…Porque quando a gente ganha idade percebe que, por incrível que pareça, é melhor e mais fácil rir da piada mais idiota do que se preocupar com o que quer que seja. Ninguém quer mais levantar bandeira de nada…Até porque a gente já levantou bandeira demais, já viu outros entusiastas fazerem o mesmo, e percebeu que nunca deu em nada. E sabe que vai continuar não dando…

Eu me sinto velha de verdade quando percebo que a cada dia me importo menos com a opinião dos outros. E quando sei que pros tão ou mais velhos que eu a sensação é a mesma…

Eu me sinto mais “passada” quando constato que tudo eu tento simplificar. Gosto de quem gosta de mim, trato bem quem me trata igual, invisto só no que me dá retorno, aplico meu escasso tempo só naquilo que me dá prazer – ou dinheiro, ou as duas coisas. É sempre um bate-volta bastante proporcional. Assim, mais ou menos simples! Até porque, depois de certa altura do campeonato, ninguém tá mais afim de ficar quebrando cabeça com equações mirabolantes, situações impossíveis e pessoas problemáticas…

Às vezes é triste saber disso tudo, idealizar isso tudo. Chamem do que for, até não acho insensibilidade, não. Insensível é aquele que não sente absolutamente nada. Quando a gente tá velho, ou vai ficando menos jovem, a gente até sente, sim…e, não raramente, sente muito.

Doi muito. Mas passa.

Custa muito. Mas passa.

Entristece muito. Mas passa.

Envaidece muito. Mas passa.

Traumatiza muito. Mas passa.

Alegra muito, mas até isso passa.

O que é pequeno demais, a gente deixa passar.

O que é grande demais, passa pela gente.

E por aí vai…

Eu sinto, ele sente, você sente…todo mundo sente que tá ficando velho de verdade quando acontece bem isso, e de forma bem perceptível: a gente neutraliza tudo. NA MARRA!



Foto: tirada da internet. Créditos não foram inseridos, porque não os achei. Se alguém souber, ou for dono dela, favor se manifestar, que insiro o nome do autor da imagem (que é o certo, segundo a Lei de Direitos Autorais). -

Talvez também se interesse por:

Leave a comment

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

6 thoughts on “Neutralizando

  • Mari

    Amiga, li seu texto e penso exatamente igual. Aliás, você fez o texto pra mim?????kkkkkkkkkkkkk
    Minha amiga aquariana maravilhosa, muitas vezes somos taxadas de “frias”, objetivas, e na realidade somos práticas! Por que complicar, se podemos simplificar? Amei o texto, concordo plenamente! Um beijãoooooooooooooooo, saudades!

    • susanasteil Autor

      Hahahahaha…que legal que se identificou, amada!
      Nós, como autênticas aquarianas, seremos tudo na vida, menos frias: falamos alto, contagiamos meio mundo com as nossas gargalhadas espalhafatosas, choramos com toda a força quando estamos tristes e deprês…Mil emoções!! Sem contar que sempre chegamos chegando…hahaha!
      Mas o fato é que a gente vai precisando aprender a tornar tudo mais prático, mesmo…meio que manual de sobrevivência…e acaba “abrindo a porteira” da praticidade pros outros…
      (Aliás, isso tudo me lembrou que ia ser bacana se fizesse um post sobre alguma coisa de signos, bela ideia!)
      Beijoooooo gigaaaaaaaa, tô morrendo de saudade!