O que aprendi com as Olimpíadas 2


Confesso que tenho inveja de atletas. Não, inveja não é bem a palavra certa, mas me dá um certo recalque acompanhar mais de perto treinos, jogos, torneios, campeonatos. Primeiro porque cada vez que vejo alguém competindo nas Olimpíadas, por exemplo, eu me lembro do quanto a minha mãe sonhou em me ver disputando qualquer coisa, e mais ainda do quanto eu realmente nasci sem talento pra esportes – nunca ter jogado nem bolinha de gude é o que me torna a maior frustração familiar de todos os tempos. Segundo porque atletas possuem algumas características pelas quais batalho dia após dia para também possuir, mas no quesito “crescimento pessoal” eu custo a passar das primeiras eliminatórias, eu mesma me nocauteio frequentemente – e aqui falo de garra, dedicação, esforço, persistência, equilíbrio emocional, racionalidade, tudo junto. Terceiro porque, mais do que jogar, treinar, superar obstáculos, alcançar limites, vencer oponentes e tudo isso, um atleta precisa aprender NA MARRA o que eu sempre sonhei que tivesse escrito num livro passo a passo, em letras garrafais, com ilustrações e legendas: COMO PERDER COM CATEGORIA (subtítulo óbvio: “e dar a volta por cima”…).

Perder faz parte, ninguém ganha sempre e isso todo mundo sabe, mas requer uma boa dose de grandes requisitos. Saber perder é para os humildes – somente esses são capazes de aceitar que não ganharam e reconhecer o talento, ou sorte, ou melhor aptidão do outro. Saber perder é para os responsáveis, porque quem não sobe no degrau mais alto do pódium precisa admitir a culpa e reconhecer que foi o único responsável por não ter vencido. Saber perder é para os persistentes, que já cansaram de saber que só esforços repetitivos é que levam à perfeição, e que sempre desejam, mesmo com todo pesar, continuar tentando. Saber perder é para os sábios, que tem a consciência de que tudo é cíclico, e que a matemática da vida é tão exata e tão perfeita, que uma hora o que tá em cima vai ter que descer, e vice-versa. Saber perder é para os sensatos, que conseguem analisar a si mesmos com retidão e descobrir o que falta e o que sobra pra um melhor desempenho. Saber perder é para os de coração bom e alma leve, que não se deixam levar pela ira, inveja, orgulho, raiva, altivez, sordidez e outros tantos sentimentos mesquinhos. Saber perder é para os espertos e inteligentes, que tem a capacidade singular de transformar uma situação traumática e indesejável num futuro grande desafio. Saber perder é, definitivamente, praqueles que já tem vaga garantida no céu por comportamento exemplar e bons antecedentes…
Nessa minha vida eu já perdi dinheiro, já perdi pessoas, já perdi tempo e oportunidades, e nos meus vários tropeços admito que não consegui muito bem, ou muito naturalmente, dar uma de atleta. Tem muita dor que eu ainda sinto, tem muita derrota que ainda não engoli, tem coisa que só de lembrar me deixa muito mais amarga. Fui treinada a vida inteira pra doar corpo, sangue e alma pra me vencer e me superar sempre, mas nunca me ensinaram que cara fazer quando me dessem a medalha de prata…Pode vir o melhor amigo pra dizer que é natural e acontece, pode aparecer a mãe com teorias conformistas pra garantir que foi pro nosso bem, pode chamar o psicólogo com mil perspectivas analíticas ou comportamentais ou psicodinâmicas pra tentar regular a cabeça, pode o massagista ser contratado pra desatar os nós, pode o psiquiatra prescrever dezenas de remédios de tarja preta pra acalmar os ânimos, pode o mundo dar todas as voltas que ele tiver que dar, que não adianta: o fato é que perder dói demais.
Olho sempre, então, para todos os jogos com atenção ímpar, pra ver se aprendo alguma coisa. Eu, que sempre tive a péssima mania de não saber perder. Mais do que vibrar pelo sucesso dos vencedores, e torcer, e testar coração, eu reparo nos movimentos, nas lágrimas, nas reações e nas sensações de quem não consegue chegar lá. Não porque me satisfaço com o sofrimento alheio, não! Até me considero uma entusiasta nata e sempre apoio quem tem dedicação e coragem. Mas acho genial o fato de que um esportista perdedor é capaz de pensar em se preparar pro próximo campeonato já no dia seguinte, e mais genial ainda o fato de que ele consegue estampar uma cara, sem hipocrisias, de “valeu muito ter competido, estou explodindo de felicidade mesmo assim”
Tenho procurado treinar mais minhas desclassificações e, assim como vocês, passei por um grande intensivo nos últimos dias. Quero fazer como os atletas pra quem tirei o chapéu nesses Jogos Olímpicos: vou me gabar das minhas vitórias, analisar friamente meu esforço na competição, vou ressignificar minhas derrotas e focar 100% nas próximas investidas! A meta, agora, é primeiro lugar em 2016 nos “4 anos com barreiras”!! Até lá devo perder mais um bocado, daí conto pra vocês se consegui realmente fazer uma cara melhor nos segundos e terceiros lugares, e se me tornei uma pessoa com melhores predicados…

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