Remedinhos que curam…


Nunca tive dotes pra esporte algum, sempre fui a mais desajeitada pra qualquer coisa que exigisse coordenação motora/ física. Era sempre a tadinha dos grupos das últimas que sobravam pra serem escolhidas no time de vôlei ou futebol da escola.
Mas como toda boa brasileira, eu tentava.
Pelo menos pra me enturmar, ou pra não ficar tão excluída.

Então me lembro de que nas férias de verão, na praia, eu me metia a jogar basquete, frescobol, vôlei…participava das gincanas como se fosse grande atleta. Também dava uma de superwoman e me arriscava nas trilhas ecológicas, mountainbikes (que eram em morros, MESMO!), escaladas e mais um monte de coisa que, repito, minha habilidade não me permitia fazer.
Desfecho óbvio: eu voltava pra casa toda ralada!! Sempre caía, aparecia cheia de lesão, com sangue até não poder mais e até não ter mais onde.
Meu pai me recebia em casa sempre com aquela cara de “sabia que isso daí não ia funcionar” e eu, bem orgulhosa, não me permitia voltar chorando.

Mas ele tinha o remédio mais eficaz de todos: banho de mar! Meu pai me fazia colocar um biquini de imediato e, independentemente do tamanho e da gravidade das minhas pisaduras, eu tinha que dar alguns mergulhos na água salgada – que, segundo ele, cicatrizavam toda e qualquer ferida.
Não importava o clima – se era verão, ou se era inverno – , nem a temperatura da água – quase sempre gelada de trincar os dentes, tenho essas lembranças muito vivas em mim até hoje! – eu tinha que mergulhar de corpo inteiro. E não bastava só uma vez! Sei lá de onde surgiu essa superstição dele, mas pra ficar curada eu precisava me afundar na água 4 dolorosas vezes.
(Dolorosas, sim! Alguém já tomou banho de mar com machucado no corpo??? Mas era isso ou passar merthiolate de cima a baixo. Ou seja: opção 1 sem pensar duas vezes!)

Bom…o fato é que funcionava! Não sei o que Deus colocou no mar de tão importante, mas antes mesmo de o meu corpo ficar completamente seco, meus machucados todos já tinham virado casquinha. E parava de doer na hora!
Então cresci com esse elixir fabuloso do meu pai. Muito mais do que Gelol, Vicky Vaporub, Cataflan, AAS, o remédio pra todas as coisas era a água do mar! O mar era o que curava as minhas gripes e resfriados, dor de cabeça, cólicas menstruais (até isso!), e minhas ralações frequentes. Até tristeza e dor de cotovelo minimizavam com um revigorante banho de mar!
(O cúmulo da crendice do meu pai foi ele me dizendo, coisa de 3 semanas atrás, pra eu tomar um banho de mar, naquele frio de inverno que tava fazendo, e fazer GARGAREJO com a água salgada, só porque eu reclamei de inflamação na garganta…”vai na praia, dá um mergulho, faz bochecho, gargarejo, ou engole a água! Vai passar a irritação na hora, já te disse isso!”…)

problema único é que eu tinha uma…mania, digamos assim, que bloqueava toda a boa ação curativa da água do mar: nunca tive paciência pra esperar a natureza agir por si própria, e cicatrizar com o tempo; agoniada com as casquinhas dos meus machucados, logo que saía do mar eu cutucava um por um e…lá estava eu sangrando novamente!
Daí, não tinha jeito: era meu pai me carregando pra mais um banho de mar…

Agora, mais crescidinha, ainda recorro à esse fabuloso remédio cada vez que me dói alguma coisa, ou quando apenas sinto aquele cansaço muscular. E ainda hoje alivia que é uma beleza!

Mas como algumas coisas não mudam, continuo impaciente, querendo me sentir melhor antes mesmo de dar meus mergulhos, e buscando a cura, antes mesmo de ver minhas feridas virarem cicatrizes. Daí não tem banho de mar que resolva!

Só agora, depois de cutucar minhas feridinhas incontáveis vezes, é que percebi que remédio melhor que paciência não existe (não excluindo, porém, o fantástico elixir do meu pai!) ! Por maiores que sejam as fórmulas, as crendices, ou até mesmo a fé…

Existe um tempo, às vezes bastante considerável, pra que as dores, contusões ou rompimentos parem, o sangue estanque, e o corpo volte a funcionar em perfeito estado. Não há nada que se possa fazer pra minimizar essa espera, nem a dor da espera, nem fórmulas perfeitas de recuperação que excluem qualquer tipo de desconforto – na vida real não existem mágicas!

O jeito é encarar que alguns ferimentos existem, sim, e dóem um bocado, mas que há um santo remédio pra todos eles. E que, por sua vez, existe uma santa calma, com boses doses de otimismo, pra cada um dos remédios. E aqueles são imprescindíveis, senão passaremos a vida toda entre mergulhos no mar…

Isso tudo até que chegue um dia, o tão sonhado dia, que nada disso mais será necessário, porque criaremos nossos próprios anticorpos…

No meu caso, meu corpo ainda não se vacinou! Enquanto isso, porém, faço o que aprendi esses dias: exerço minha paciência com maestria, e torço pra que passe o quanto antes. Com ou sem a água do mar!

TEXTO ORIGINALMENTE ESCRITO E PUBLICADO POR MIM EM OUTUBRO DE 2010, NO MEU ANTIGO BLOG. ACHEI NOS MEUS ARQUIVOS, MAS VALEU COMO SE FOSSE PRA HOJE…

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