Revolta virtual


Só Cristo pode me convencer que redes sociais são meio de comunicação.

Pra mim, é tudo marketing pessoal e entretenimento. E quase que exclusivamente.

Não muito raramente sou tida como a antipática virtual, porque não respondo mensagens, ou não leio, ou leio e esqueço de dar um retorno, ou ignoro, ou, quando percebo, deixei passar em branco e ficou tarde demais pra retomar o assunto…Não chego a ser daquelas que tem pavor de qualquer modernidade – assim como você, não sei mais o que é uma vida sem smartphones e a falta de uma internet que funcione decentemente me estoura os nervos. Assim como você, quero tudo pra ontem. E não me sentir atualizada me soa quase pior do que estar sem roupa e sem dinheiro.

Mas, mesmo admitindo a genialidade e a praticidade de um Facebook, por exemplo, acho que as coisas realmente muito importantes, os contatos muito urgentes e as notícias muito bombásticas vêm ao vivo e a cores.

Quase tenho um AVC quando alguém me manda mensagem com um “preciso falar contigo URGENTE”.

É urgente?? Mesmo???

Então me liga, oras bolas! Não seria mais prático? Fala comigo na hora, que tudo se resolve!

(Estão, obviamente, excluídas das minhas causas de mau humor virtual as frases “preciso falar contigo urgente, passa o teu celular?” e “tentei ligar, mas caiu na caixa…preciso falar contigo urgente, dá um retorno”).

social_mediaChega a me dar arritmia cardíaca quando alguém quer tratar de qualquer assunto profissional sério, como contratos, horários, reuniões, novos trabalhos, por inbox. Que me desculpe quem faz isso com frequência, mas acho de um amadorismo sem igual. Bem ou mal, coisas importantes ainda exigem uma certa formalidade. Ou alguém imagina a Presidente criando um grupo no Facebook “pauta da semana” pra discutir com os assessores? Alguém consegue visualizar um CEO de uma multinacional tratando das estratégias da empresa, ou confirmando reuniões com outros poderosões via whatsapp? Acho que nem o próprio Mark Zuckerberg utiliza o Facebook pra tratar de coisas muito sérias, do tipo “Meeting. Tomorrow. 9am. Room #513. Don´t be late!”…Face e congêneres ainda são melhores quando utilizados como olho mágico da sociedade, e quase que apenas isso…O que é muito sério vem de outra forma.

E as grandes novidades pessoais do ano, então? “Vamos nos casar!”, “estou grávida”, “mudei de emprego”, “mudei de cidade”, ‘fugi do país”…todas as coisas mais importantes do mundo merecem divulgações à altura! Não que nada disso não deva ser compartilhado virtualmente, mas o que é relevante, e pra quem importa, de fato, cabe melhor num abraço, num sorriso, num parabéns sincero, naquele momento único de surpresa do receptor da novidade, na voz embargada de felicidade…ou até de tristeza…Redes sociais ainda não conseguem reproduzir nada disse muito fielmente. Talvez infelizmente.

E os primeiros encontros, primeiros investimentos? Não venham me dizer que hoje tudo se resolve por Whatsapp, que sou de um tempo em que as pessoas eram um pouquinho mais românticas, que tentavam impressionar nos primeiros contatos. Não tem nada mais legal que esperar pela ligação de um “futuro qualquer coisa”, e não saber o quê falar, e ouvir aquela voz tremida do outro lado da linha de quem não sabe pra onde leva a conversa…Esse nervosismo natural de quem está apenas se conhecendo é lindo, é necessário, é ingrediente da receita e não deveria ser abolido só porque a comunicação está mais rápida e simplificada nos últimos tempos…”Ah, com tanta facilidade, ligações hoje são prova de amor! E, afinal, quem liga pra alguém hoje em dia?” Qualquer pessoa que acha que do outro lado da linha existe alguém que valha mais que R$0,99 o minuto…Aliás, investimentos ainda são investimentos!

Os convites, então? Convites virtuais são praqueles que não podem receber, DE JEITO NENHUM (que pena!), a mesma chamada de forma pessoal (ou quase). Até concordo que cartõezinhos enviados por email ou Facebook são modernos e poupam um tempo precioso da parte de todo mundo (eu já mandei vários, e sei como tempo é crucial nessas horas), mas eles devem preceder uma mensagem ou ligação com um simples “E aí? Recebeu? Faço questão da sua presença!”. Na pressa de fazerem milhares de coisas ao mesmo tempo, as pessoas têm se esquecido de ser gentis. Já da época que Eva comeu a maçã do pecado, TODO MUNDO gosta de ser lembrado e tratado com carinho! Custa alguma coisa? Pra quem é realmente importante, acho que muito pouco!

(Não é só etiqueta! É sensibilidade e educação, minha gente!)

Só não me levem tão a mal…Acho sensacional acompanhar a vida de vários amigos e parentes pelo Facebook, pelo Instagram, até mesmo pelo Skype. Acho que, pra grandes distâncias e pra pessoas queridas que não são mais tão próximas simplesmente porque o tempo passou e fez com que todos tomassem rumos muito diversos, não há melhor forma de conexão! Quando essas redes sociais são a única forma de contato restante, geralmente por motivos geográficos ou de convivência remota, daí alguém até pode me convencer de que são preciosos meios de comunicação.

Por favor, então, continuem postando com quantos quilos os bebês de vocês nasceram, ou as fotos da última viagem, ou o jantar de sexta com o love, ou o primeiro dia no novo trabalho…Continuem nos alimentando com sentimentos variados, de saudade, de curiosidade, de inveja…Compartilhem suas vitórias (mesmo que, pra muitos, insignificante), exponham suas decepções (mesmo as infundadas), incitem calorosas discussões sobre os assuntos do momento (mesmo as baseadas em mero “achismo”)…Isso tudo é genial, bacana de ver, deixa o nosso dia mais leve…As piadas, mesmo…CONTINUEM COM AS PIADAS!

Mas, se não for um favor tão maior assim, procurem-me PESSOALMENTE se for algo importante, urgente, bombástico. Enquanto o Facebook, o Instagram e semelhantes continuarem sem cheiro e sem sabor, vou preferir um contato direto, olho no olho, a todos esses. Vou continuar não lendo várias mensagens (mil perdões, mas é bem isso), seguindo a minha teoria de que “se for sério, vão me achar rapidinho noutro lugar”. Vou continuar querendo que participem mais ativamente da minha vida, naquilo que for necessário e pra quem for essencial, do que apenas curtam, compartilhem e comentem algo (e fofoquem depois). Vou continuar querendo ser mais “parte integrante” da vida de alguém que eu amo, do que mera expectadora…Vou continuar achando que redes sociais são imbatíveis pra muita coisa, mas que boa parte dos protagonistas da minha vida não precisam delas pra me atualizar…

Posso?

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