Ruralices (ou desurbanidades…) 2


Precisei fazer um trabalho no interior, que de interior até não teve muito, já que fugi da cidade não muito mais que uns 30 km, e voltei lamentando o quão medíocre é a nossa vida no meio de tanta correria…

Percebi que hoje sinto falta de andar mais de bicicleta (verdade seja admitida: de andar de bicliceta! Tem pelo menos uns 10 anos que não faço isso regularmente!) e, de quando estou de carro, a nunca muito mais do que 40, 50 km/h, de desviar das várias crianças que brincam de bola livremente na rua.

Não me lembro do último dia em que comi fruta direto do pé, e isso também me deixou com uma saudade daquelas…queria minha infância menos urbana de volta!!

Queria muito poder cumprimentar todas as pessoas do meu bairro pelo nome, e também ter liberdade e confiança nos meus vizinhos, pra que eles olhassem a casa e o meu cachorro quando da minha ausência. Juro que até deixaria a chave, sem pestanejar, pra que a casa fosse aberta pra receber o sol da manhã, e o quintal visse uma vassourinha no fim da tarde…

Ah, e é claro que eu queria muito um quintal…grande, espaçoso, com muitos tons de verde, e uma horta respeitável no fundo, de onde eu pudesse colher pelo menos alface com 0% de agrotóxico!

Queria até uma vizinha chata, entrona e metida a íntima demais, dessas que batem todo dia na porta pedindo uma colher de açúcar, ou duas de farinha de trigo…Não sei quando foi que ouvi alguém tocar minha campainha pra coisas desse tipo…Aliás, nem sei quando foi que alguém tocou a campainha da minha casa, sem que eu tivesse realmente esperando pela visita…

Queria poder reparar na “conversa matinal” dos pássaros, com seus sons agudos e ritmados, e acordar com o galo cantando antes das 6h??? Sério, não lembro…Até isso eu também queria!

Queria sentir o cheiro do mato, e o cheiro da chuva batendo no asfalto quente…

Queria mais banhos de chuva, e que eles não fossem porque um motorista mal educado, num dia molhado e de trovões, passou voando, atrasado pra sei-lá-o-quê, e encharcou a mim e a todas as pessoas que passavam calmamente pela calçada…

Queria pão caseiro, queijo caseiro, bolo caseiro, café passado com coador de pano, leite in natura tirado agora há pouco, da vaca, da cabra ou de qualquer outra coisa que não fosse uma caixa industrializada…

Queria viver mais cercada de animais (de verdade!) e de gente menos importante (muito embora até desejasse ser bem amiga do padre, do prefeito e do delegado da cidade!)…e que as coisas todas fossem mais simples e até me sobrasse dinheiro no final do mês, por eu não ter tanta futilidade assim pra desejar!

Queria só desejar uma cadeira confortável numa varanda também confortável, com o vento batendo na minha cara e desarrumando de leve o meu cabelo, enquanto tivesse lendo com a maior calma do mundo o jornal do dia…

Queria mais almoços em família, e todos os meus amigos num raio de até 4 km da minha casa…

Queira muito mais cor, e muito menos barulho (com uma única exceção concedida ao insuportável som do sino da igreja, badalando toda manhã e toda noite, só porque ele tem tudo a ver com esse meu habitat interiorano…)…

Queria ter o tempo que não me sobra entre compromissos e trânsito caótico (e excesso de gente!)…

Queria tudo isso junto, e até teria, se morasse nesse interior de pouco mais de 30 km da minha cidade que cresce em progressão geométrica…MAS, NÃO : no próprio caminho de casa o engarrafamento de 1 hora já me trouxe de volta à realidade, e lá se foi o meu sonho rural…

Vou continuar sonhando com o que não tenho, e com um pouco daquilo que já tive e não sei em que passado se perdeu…Juro pra vocês que por hoje, e muito provavelmente não apenas por hoje, trocaria meus Apples, minha conectividade, minha interatividade 24h, todos os canais da minha tv a cabo, todos os meus achados de moda, e todos os luxos da minha vida moderna por mais CALMA e esse (a partir de agora tão esperado) ÊXODO URBANO…

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2 thoughts on “Ruralices (ou desurbanidades…)

  • Lilian

    Gostei do seu texto, pois me fez refletir o quanto já tive pavor de expressões assim romantizadas da vida rural, acho que já estou mais calma, madura e tolerante… rs Que bom! Explico: nasci na roça (na zona rural de uma cidade de 13 mil habitantes), morei lá até os meus 10 anos, muitos parentes moram até hoje lá. E toda esta descrição bonita eu só via na tv (sim, tinha tv! rsrs) e da boca das visitas que vinham da cidade. Todos da cidade achavam lindo, calmo, maravilhoso… Mas, eu via meus pais, tios, avô já velhinho, se matando de trabalhar, acordado as 5 da manhã, voltando todo sujo tarde da noite, muito cansados, eu andava as vezes 5 ou 6 Km pra ir pra escola, voltava pra casa com minha mãe e irmãos tarde da noite andando Kms no escuro, pq estrada do interior não tem iluminação… Minha avó se matava pra lavar roupa no rio (depois ganhou um tamque)… Enfim, era uma trabalheira sabe, todo mundo cansado, sofrido que quando a modernidade e condições financeiras foram chegando, a maioria parou de fazer os queijos, os pães, pois 2 vezes por semana vinha um vendedor entregar, compraram máquina de lavar, computador, muitos mudaram pra cidade, verdura também tem vendedor agora! rsrs E eles usavam agrotóxico nas alfaces e tudo mais sim, os conhecimentos sobre orgânicos chegaram bem depois e nem todo mundo que mora na roça tem mais horta ou pomar… acho que pelo cansaço mesmo… É uma vida bem difícil, essa paz a maioria nem tem, só quando recebe visita… rsrs
    Mas, como disse, hoje entendo melhor o ufanismo de quem mora na cidade quando vai pro interior, e até eu tenho vontade de ter um sítio um dia… Com caseiro pra cuidar de preferência, pq dá um trabalhão danado cuidar de tudo isso… beijo
    LILIAN

    • susanasteil Autor

      Sim, Li…No interior se trabalha BEM mais, e se cansa bem mais, acredito. Não é uma vida perfeita, obviamente, até porque tudo tem sempre dois lados…
      Ainda assim, é uma vida bem mais VIDA (no sentido mais puro que essa palavra tem), e não é à toa que Antônio Carlos, por exemplo, registra uma das maiores expectativas de vida do país!!
      Hoje, mesmo em cidades menores, ou muito afastadas de grandes centros, já encontramos algumas “modernidades”: as pessoas já sabem o que é internet, tv a cabo, eletroeletrônicos em casa- muito embora eles não sejam utilizados com a mesma necessidade urgente que nas metrópoles e tal…Ou seja: já foi bem pior!!
      Por outro lado, mesmo com trânsito, filas, excesso de pessoas, viver numa grande cidade, claro, tem suas vantagens! Estamos todos acostumados com variedade e uma certa mordomia, coisas que não se encontram numa cidade pequena!
      Acho, de verdade, que é uma questão de prioridades: o que é necessário e primordial pra cada um…Conheço um bocado de gente que não troca o agito enlouquecedor de São Paulo por nada!!
      Eu não ando muito pra tirar leite de vaca, andar de botina, lavar roupa no tanque, esperar a galinha chocar um ovo pra fritar no almoço…admito que não sou nem nunca serei o esteriótipo de uma moça de interior!! Roça, EXATAMENTE ASSIM, só me agrada por um final de semana (e olhe lá!), mas realmente continuo afirmando que, do jeito que as coisas andam, hoje eu realmente dava tudo por um pouco mais de sossego, simplicidade…e, quem diria, uma lifestyle bem menos citadino e cosmopolita!