Sobre amores genuínos 2


No meu compartimento secreto e sagrado de saudade, há sempre um bom lugar reservado praqueles que vi pouquíssimas vezes, se não uma única na vida. Há também espaço pra quem vejo com freqüência, mas cujos laços de amizade, sei lá por quais motivos, nunca foram dos mais apertados. Sabe aquela tia querida da padaria da esquina? Sabe o amigo de infância que a gente não vê há uns vinte anos? Sabe a amiga da prima distante que tem uma gargalhada contagiante, e meu Deus como ela é alto astral? Sabe a avó da amiga da época do ballet que fazia um bolo de fubá bem macio? Sabe o companheiro de apenas um dia daquela viagem de férias que ficou num passado bem remoto? Então…nem me lembro tão bem, mas tem gente que passa uma energia muito boa. E desses a gente sente saudade.

Alimentando esse sentimento, meio saudosista, meio água-com-açúcar, que comecei a pensar que, sem exagero e também sem nenhum motivo muito plausível, amo essas pessoas. Esse, vai ver, pode ser um amor bem genuíno da minha parte…então comecei a pensar no que seriam, exatamente, amores genuínos. Desses que tudo crêem e tudo suportam.

amor_verdadeiro_penaPrimeira coisa que até ateu pensa quando assunto é “amor a troco de nada” é no amor de Deus. De fato, é o único que nos ama desmedida e incondicionalmente, e que nos comprou mesmo com defeito de fábrica. Deus não se importa com a reciprocidade do sentimento, e se fosse mesmo atender ás nossas orações por conta disso, não sobrava um abençoado no mundo. Isso, sim, é amor puro.

Mãe também é meio assim. Com a diferença de que, entre o começo do amor de mãe e o fim dele, que nunca morre – normalmente, há uma serie de broncas, xingamentos, pragas rogadas e lições de moral por tabela…Mãe crê muito, mas não em tudo. Mãe suporta quase tudo, mas não tudo. Pelo menos não tudo de boca fechada…

Amor de amor, amor de amigo, amor de irmão, amor por um semelhante…todos tem seu quê de lindo, de surreal e inexplicável, mas são amores que tem durado cada vez menos e se doído cada vez mais por muito pouco…São os típicos que até crêem em muita coisa mas não andam suportando quase nada…

O que, então, eu acho mais sensacional, mais exemplar no quesito “amor genuíno”, que “não pede nada em troca”, são esses de pessoas que muito pouco nos conhecem, mas que sentem as melhores coisas por nós. Tipo o da relação “ídolo – fã”.

Já parou pra pensar? Sempre tem alguém que nos deseja o mais estrondoso sucesso, que pensa em nós com freqüência, que segue nossos passos, mesmo que de bem longe. Que faz a melhor imagem possível de nós. Que sente uma saudade como se tivesse passado anos ao nosso lado, quando, muitas vezes, nem sequer esteve perto. Que só tem palavras confortantes e estimulantes pra nos oferecer a qualquer momento. Ninguém precisa ser famoso pra ter admiradores desses. Eu tenho. Você, seguramente, também tem.

Esses “admiradores”, “fãs” ou “puros de coração”, como queira chamar, simplesmente decidiram que somos legais e ponto. Essa gente acha que a gente é divertido, e agradável, e cheio de habilidade, e amável, e várias outras coisas muito louváveis…A gente até é divertido, e agradável, e cheio de habilidade, e amável. Eu e você.

Mas não sempre…Tem horas que a gente é um verdadeiro pé no saco.

Esse povo que gosta da gente sem muita razão, nem afinidade, não ta nem aí pras coisas de ruim que a gente pensa, ou faz. Eles simplesmente escolheram que, sei lá por que cargas dágua, seríamos perfeitos e passaram a nos amar. Tudo que a gente faz é lindo, as palavras que saem da nossa boca são quase profecias, e só o que prevalece são as qualidades…É o mais perfeito exemplo de “amor por escolha”. Certa ou nem tanto, mas ainda assim uma escolha. Essas pessoas escolheram que seríamos o máximo!

É meio que o que eu sinto pela vó da minha amiga do ballet. Nem sei se ela é rabugenta e vive seus momentos eternos de inferno astral, mas o bolo dela era mesmo muito bom e não consigo imaginá-la sendo outra coisa que não muito fofa. Eu escolho passar minhas melhores vibrações a ela…

É como o que eu sinto pela tia da padaria da esquina, que é uma simpatia como poucos – mesmo eu a conhecendo (e os outros “poucos”) muito pouco…escolho repassar todo o meu “amor a troco de nada” a ela também…Sei lá daonde, mas ela merece meus melhores sentimentos…

É o que alguns sentem por mim, e é o que você sente por várias pessoas que já viu na TV, numa revista, no meio da rua, e das quais se sente absurdamente íntimo…É um “amor” fantasiado por uma pessoa idealizada…mas que me perdoem os psicólogos, esse amor é muito bacana! E, realmente, pede muito pouco ou nada em troca…

Claro que precisamos dos outros amores. De Deus, da mãe, do amor “eterno enquanto dure”, do amigo de infância (não excluo o valor imensurável de cada um deles, principalmente o de Deus…)…Mas é louco, e bom ao mesmo tempo, saber que alguém é capaz de nos amar (e de verdade!) sem nos conhecer, e vice-versa. É um amor bizarro, super inventado, mas totalmente válido.

Vida longa, então, a esses amores! No fundo, no fundo, a gente é bem feliz quando vive de amor genuinamente fantasiado…

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2 thoughts on “Sobre amores genuínos

  • susana steil

    oi tdo como é estranho abrir uma busca e encontrar outra pessoa com o seu nome e sobrenome nunca imaginava que existia duas susana steil mais fiquei feliz pois adorei suas postagens foi um prazer imenso compartilhar meu nome com alguém que tem um dom tão maravilhoso de Deus abraços

    • susanasteil Autor

      Ah, que bacana ler isso, minha xará mais que xará! Realmente um nome como o nosso é algo extremamente improvável (ainda ais com S!)…Fico feliz que tenhas gostado, és minha convidada pra voltar sempre que quiseres!
      Grande beijo, fica com Deus!