Tudo o que resta 2


Ninguém precisa ser discípulo de Sir Fürer pra influenciar alguém. Ser conivente demais, ou maquiavélico demais também não resolve. Ler o livro todo de Dale Carnegie, aquele famoso de “como fazer amigos e influenciar pessoas” (ou qualquer coisa motivacional do tipo), assinalar todas as frases de efeito e colar no mural do escritório as palavras-chave em fonte 116, assim somente, não vai tornar ninguém um grande dissimulador de ideias, de sonhos. Psicanálise, autoajuda, curso de oratória, coaching, terapia de grupo, questionário identificador de personalidade…pode ajudar – e ajuda! – mas não é o que vai te fazer tocar profundamente numa pessoa, ou em várias pessoas. Nada disso é a fórmula exata que vai te colocar na cabeça de alguém, no coração de alguém, na rotina de alguém, a ponto de fazer aquela reviravolta boa, de mudar conceitos, pensamentos, gostos, planejamentos.

Influenciar pessoas tem a ver com confiança e boa memória, e as duas coisas a gente só tem quando a gente gosta: todo mundo só se lembra do que deseja lembrar e só confia naqueles por quem o coração bate – ou, ao menos, simpatiza.  Inspirar alguém é a medalha de ouro na categoria significância – ninguém segue alguém que não seja importante, ninguém ouve alguém que não aprecia ou não respeita…Conseguir provocar a reflexão, substituir hábitos, transformar convicções e desejos são a grande prova de que somos realmente consideráveis. E considerados.

Passada a raiva inicial e momentânea, muito bom saber que fui contestada. Sinal de que o que eu falei teve lá sua importância…Sensacional também saber que fiz rir demais, e que fiz, de pior maneira, chorar demais – eu só lamentava a perda ou o estrago dos brinquedos que mais me agradavam; pras Barbies bonitinhas demais eu não tava nem aí. Fiquei realmente muito orgulhosa em saber que minhas repreensões e chatices surtiram efeito, e até peço um bilhão de desculpas porque nunca quis que meu excesso de zelo fosse confundido com estupidez e impertinência…E me agrada demais saber que, talvez, eu tenha te tornado uma pessoa mais sentimental  e menos desligada, por mais que na tua cabeça eu faça, até hoje, muito barulho por nada…

Hoje eu sei que as trilhas sonoras mudaram, as tardes mudaram, as rotinas desse nosso começo de semana também, e depois daquilo tudo talvez não existam mais noites tranquilas, nem cabeças leves no travesseiro. Mas eu sei que tem dedo meu na escolha do figurino, no corte do cabelo, no despertar do desejo da primeira visita à Europa, naquele filme que precisavas ver, naquele curso que eu te falei que era muito legal e que valia muito a pena, e que te podia ser muito útil…Sei que tem um pedaço de mim nas tuas decisões de não desistir assim tão fácil, nos rumos profissionais, nas crenças e fés, nas variações de caminho e em todas as tuas boas coisas que precisaram ser compartilhadas…Sei que fiquei um pouco naquele lugar legal, naquele fim de tarde agradável de céu sem nuvens e com vista pra cidade, no café do meio da tarde, nos teus aniversários, nas frases e feitos inesperados e foras de hora…

Sei, sim, que estou por aí, mesmo quando não quero estar, e não chamo isso de vaidade nem de pretensão, até porque também EU fui influenciada, também saí do centro de mim mesma, e olha que tenho personalidade forte! Hoje sei que preciso pensar duas vezes antes de criticar, porque posso machucar muito com as palavras; agora entendo que preciso ser menos sensível, já que quase sempre isso me fere demais, e aos outros também; procuro exercitar o poder da abstração e do perdão rápido que, muito sabiamente, por ti me foram ensinados… Comprei um livro sobre vinhos, tento cozinhar mais que bolo Sol, macarrão pré-cozido e frango grelhado com tempero pronto, e confesso que nunca mais tive coragem de mudar meu cabelo porque me lembro de te ouvir dizer que assim pareço mais uns 2 anos mais nova e uns 2 quilos mais magra…Tento ser menos impulsiva nas compras, um pouco mais simplificada e descomplicada em tudo, procuro aproveitar minha nova pão-durice adquirida pra, quem sabe e daqui a alguns anos, investir num imóvel e, de tanto que te ouvi me incentivar, coloquei na minha cabeça que realmente tenho algumas aptidões bem interessantes!

Por mais que a chateação tenha sido muito grande e o afastamento, necessário, não tenho como dizer que não guardo um bom bocado de ti em mim…nossa convivência tornou até nossas diferenças parecidas, e nossas personalidades distintas, absurdamente complementares…

Também não me ousas dizer que em nada te transformei – saberíamos se tratar da maior das mentiras…Somos agora o resultado de um bom tempo de saudáveis contatos, de anos de segredo compartilhado, de histórias engraçadas e choros (muito!) no colo – de amizade, acima de tudo! Sou um pouquinho de ti e tens várias das minhas boas e péssimas manias…

É…Mesmo com as palavras rudes, com as atitudes que machucaram, com os desacertos e com a ruptura (que só o tempo vai dizer se é momentânea ou não) hoje sinto que nos influenciamos mais até do que gostaríamos que fosse desde o começo, e infinitamente mais do que imaginamos quando pensamos a respeito. E, não, nunca precisamos ler nenhum manual, nem fazer nenhum curso que nos ensinasse como fazer isso: essa é a maior e irrefutável demonstração de que tivemos, temos e talvez sempre teremos um grande significado nesse nosso louco contexto…

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2 thoughts on “Tudo o que resta

  • hmmmmmmm pensativa, su! gostei do teu texto. isso é saber refletir sobre as coisas que a gente precisa perder ao longo da vida, e que provavelmente nos fazem ganhar mais do que realmente perder. <3

  • Emanuella M. S. Nicolazzi

    Susu…. como sempre brincando com as palavras, refletindo, buscando auto-conhecimento e crescimento!
    Beijos flor, me influencias porque és significativa para mim, me influencia porque tuas crenças são congruentes com as minhas e principlamente, por eu admirar o que fazes com aquilo que tu és.